Programa inédito de conciliação e mediação de conflitos é instituído no serviço público paulista
Procuradoria Geral do Estado vai iniciar um programa piloto nas secretarias da Administração Penitenciária, Saúde e Educação; A iniciativa se baseia no princípio de que ações exclusivamente punitivas não são suficientes para tratar casos disciplinares
Postado em : 08/08/2018



Texto e entrevista: Lucas Mendes

 

Servidores públicos do estado de São Paulo vão contar com um programa de mediação para resolver conflitos e desentendimentos. Conhecida como justiça restaurativa, a prática oferece um meio alternativo à concepção punitivista da justiça.

A iniciativa foi publicada como resolução conjunta da Procuradoria Geral do Estado e secretarias da Administração Penitenciária, Saúde e Educação no final de julho. O projeto se inicia como programa piloto nessas três secretarias que, juntas, somam 80% do total de processos da Procuradoria de Procedimentos Disciplinares (PPD).

A informação é de Ana Sofia Schmidt de Oliveira, Procuradora do Estado de São Paulo com atuação na PPD. Especialista e mestre em Direito Penal pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), ela é formada em Mediação de Conflitos pela Associação Palas Athena.

“Quem trabalha a justiça restaurativa costuma dizer que a criança sai de cena e entra o adulto”, explica a procuradora. “Quando fazemos uma autorreflexão, nós pensamos no que a gente poderia ter feito diferente”.

O “Programa de Solução Adequada dos Conflitos de Natureza Disciplinar”, de acordo com a justificativa da resolução, quer aprimorar a atuação da PPD. Para isso, parte da ideia de que uma ação exclusivamente punitiva não é suficiente para tratar casos disciplinares. Além disso, não contribui para aprimorar a atividade dos servidores e nem a qualidade do serviço público.

Incentivada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), as práticas da justiça restaurativa funcionam no Brasil há pouco mais de 10 anos. Com origens na cultura anglo-saxã, a atividade dá mais autonomia aos envolvidos em desentendimentos ou infrações.

“Eu poderia resumir que é a pessoa virando protagonista da sua própria vida. Não é alguém de fora que vai resolver”, sintetiza Schmidt. Para a procuradora, que pesquisa e escreve sobre os procedimentos restaurativos, os benefícios dessa prática podem beneficiar até o cotidiano de quem participa das mediações. “A ideia é olhar para a situação com outro enfoque. E isso é um aprendizado para a vida”.

Confira a seguir a entrevista com Ana Sofia Schmidt de Oliveira, Procuradora do Estado de São Paulo, sobre o programa piloto de resolução de conflitos no serviço público paulista.

 

Procuradora Ana Sofia Schmidt de Oliveira pesquisa e escreve sobre a justiça restaurativa (Foto: Reprodução/Escola Superior do Ministério Público)

 

Como vai funcionar esse novo procedimento para os casos de infração disciplinar que chegam na Procuradoria de Processos Disciplinares?
Vamos trabalhar com conflitos em uma fase muito incipiente, que ainda não se transformaram numa infração disciplinar. Seria uma medida mais preventiva.

Todas essas estratégias de resolução auto compositiva de conflitos são para que as pessoas tenham autonomia para resolver as próprias questões. Este é o fundamento da mediação. É que as partes estejam efetivamente envolvidas na resolução dos seus problemas. Porque numa resolução de alguém que vem de fora e aplica uma medida, a adesão àquilo acaba sendo muito menor de que em uma medida que você participou da construção.

Qual a diferença dessas abordagens?
Quando a gente trabalha numa perspectiva acusatória, a pessoa só se defende. Ela não tem oportunidade de analisar de que forma ela contribuiu para que aquele problema acontecesse. Quem trabalha a justiça restaurativa costuma dizer que a criança sai de cena e entra o adulto. Quando fazemos uma autorreflexão, nós pensamos no que a gente poderia ter feito diferente.

No procedimento de mediação é feito um convite para que o participante fale sempre em primeira pessoa. Porque o natural é apontar o dedo e colocar a culpa no outro. Então é sempre um convite para a reflexão do próprio papel. Aquela velha história de que quando um não quer, dois não brigam, é totalmente real. Se houve um conflito, então alguma participação sua deve ter.

Quais os benefícios e o que isso pode trazer de positivo para os servidores?
Você pega uma pesquisa rápida na internet e já encontra muita coisa positiva sobre isso. Não é uma questão de estatística, de contar quantos casos favoráveis ocorreram, mas é principalmente muito mais pela qualidade daquilo que acontece ali, pela mudança que isso gera na vida das pessoas. O livro fundamental da justiça restaurativa é do Howard Zehr, “Trocando as lentes” (*). E é isso, olhar para a situação com outro enfoque. E isso é um aprendizado para a vida.

A participação nesse tipo de procedimento vai além do espaço formal em que ele ocorre?
Existem muitos relatos nesse sentido. As pessoas que participam de uma sessão restaurativa e conseguem resolver uma questão ou tem essa riqueza de conseguir olhar para um problema pelo olhar do outro, carregam isso consigo. E isso depois muda a forma com que você discute com sua mulher em casa, com o filho, colega de trabalho. É um aprendizado e é muito rico. Não é uma técnica de trabalho, é uma filosofia de vida.

Essas técnicas estão sendo implementadas no contexto do serviço público em outros estados?
Pelo que eu tenho visto, acho que não há essa aplicação no âmbito disciplinar do serviço público. Eu sei que algumas entidades têm projetos de aplicar a justiça restaurativa para procedimentos disciplinares internos. A PUC, o Conselho de Psicologia, mas como iniciativa no âmbito da administração pública é a primeira aproximação.

Como a justiça restaurativa pode aprimorar o serviço público?
No âmbito do serviço público tem muitos problemas de natureza de relacionamento interpessoal, as pessoas às vezes têm pouco repertório para lidar com seus conflitos. As vezes a pessoas acordou com problema, respondeu mal o colega de trabalho, e o outro já interpreta isso de uma forma esquisita, e aí o negócio vai piorando. Isso na teoria da mediação chama “escalada do conflito”. Normalmente num ambiente estressante e com as dificuldades do dia-a-dia, não é sempre que a gente fala o nosso melhor.

Como que você separa um ato que é uma falta de educação de um ato que é realmente uma infração? A expressão do estatuto “dever de urbanidade” é muito amplo e bem subjetivo. “Você não me deu bom dia hoje”, “você virou a cara para mim”, “o elevador estava chegando, você não me esperou e a porta fechou”. Então é bem subjetiva essa noção.

Administrativamente, como vai se estruturar a iniciativa?
O primeiro projeto piloto é uma coisa que a gente vai começar a estabelecer agora. Porque a construção dos fluxos, como vai funcionar, quais os casos serão encaminhados, isso tudo será construído em conjunto com as secretarias participantes.

Essa questão da co-construção é um princípio fundamental. Uma técnica fundamental da justiça restaurativa é o processo circular, em que as pessoas sentam em círculo para construir um consenso. A ideia básica é que existe uma sabedoria coletiva e que ninguém é dono da verdade, a voz de ninguém é mais importante que a do outro. Então vamos dar esse alinhamento inicial, mas é o Comitê Gestor, composto por representantes das várias secretarias e da Procuradoria Geral, que vai construir a metodologia, pensar nos fluxos.

Os próprios procuradores vão fazer as mediações?
Não serão os procuradores que vão trabalhar nas sessões. Eles não serão os mediadores. Eventualmente se tiver alguém com formação na área pode até ser usado. Mas a princípio vamos fazer termos de cooperação, convênios, com entidades que fazem já a formação de mediadores e facilitadores. Até porque a formação não é simples assim.

São Paulo tem hoje pessoas de muita excelência fazendo essa formação. Tem a Associação Palas Athena, que tem uma história longa desde o começo da implantação da justiça restaurativa, tem o Laboratório de Convivência também. Esses locais formam pessoas e essas pessoas precisam de casos para atuar na prática. Então as necessidades se complementam.

O programa vai começar com três secretarias: Administração Penitenciária, Saúde e Educação. Qual foi o critério de escolha das pastas?
Por ser um programa piloto ele começa pequeno, com três secretarias. Mas é claro que a ideia é espalhar isso. Durante um período estará nesse âmbito mais restrito. Até porque precisamos ver qual o modelo que mais funciona, se dará certo esse sistema de cooperação. A ideia é disseminar isso e, na verdade, também capacitar as pessoas para que nos próprios locais de trabalho tenham mais ferramentas para lidar com seus conflitos.

Essas três secretarias representam quase 80% do total de processos da PPD. O grande volume de processos vem da Educação, Saúde e Administração Penitenciária. Então o critério para a escolha das secretarias foi esse.

É possível mensurar os reflexos positivos da justiça restaurativa, no sentido da celeridade, de diminuir o número de processos e desafogar a Justiça?
Por enquanto não dá para falar nada sobre isso. Na verdade vamos tratar de questões que eventualmente nem virariam processos. Essa cultura virá a longo prazo, criando um ambiente melhor, criando estratégias que evitem essa escalada do conflito, uma capacidade de desenvolver um olhar mais sensível para essas questões de relacionamento interpessoal. Muitas vezes as pessoas nem sabem como resolver seus problemas, e se tivesse uma intervenção no começo, o problema poderia ter sido evitado.

Eu tenho uma crença muito forte de que isso, ao médio e longo prazo, tem uma capacidade de mudança muito grande. E o simples fato de a pessoa participar de uma sessão restaurativa, de ela ser escutada, ser respeitada, essa experiência acaba sendo tão transformadora que ela passa a replicar a respeito no seu dia-a-dia.

Então a justiça restaurativa chega no funcionalismo público paulista como um tipo de complementação das ações disciplinares?
Eu poderia resumir que é a pessoa virando protagonista da sua própria vida. Não é alguém de fora que vai resolver. O poder de resolução está nas suas mãos.

Claro que tem coisas mais sérias e complicadas que a justiça restaurativa não abarca. Então o processo tradicional ele tem a sua lógica e sua finalidade. A questão é que temos problemas de variadas escalas e tem um remédio só. As vezes os problemas de ordem pessoal não precisam de um canhão para resolver e, às vezes, o processo é um antibiótico para tratar um arranhãozinho. Então a ideia é aumentar o cardápio de soluções possíveis. É ampliar isso, com tudo que se aprendeu. Já está na hora de pensar em novos caminhos.

 

(*) - Trocando as lentes: justiça restaurativa para o nosso tempo, livro de Howard Zehr





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