Heróis invisíveis morrem no sistema prisional

163 homens e mulheres “assassinados” covardemente por um inimigo invisível

Carlos Vítolo

Imprensa Sindcop

A rotina de se despedir da família sem saber se voltaria para casa após o expediente, não mais se repetirá para 163 homens e mulheres. Eles eram policiais penais. Até então, sobreviviam ao caos diário do sistema prisional, mas foram “assassinados” covardemente por um inimigo invisível: o novo coronavírus.

Acostumados com a invisibilidade pelo tratamento dos governos e na falta de reconhecimento da sociedade, provavelmente esses policiais penais serão esquecidos e não passarão apenas meros números na somatória dos mortos da pandemia.

O sonho da aposentadoria para uma vida longe dos riscos diários e das grades, não existe mais. O que resta, são apenas as lembranças nas memórias dos companheiros que ficam e continuam lutando contra a desvalorização e a busca constante de provarem que são essenciais à segurança pública.

O registro das 163 vidas que perderam a batalha para a Covid-19 está no último levantamento do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), sobre o monitoramento semanal dos casos de contágios e mortes por Covid-19 entre servidores do sistema prisional.

Os dados também apontam a confirmação de 18.081 casos, que aliás, tem o Estado de São Paulo como líder deste ranking de mortes de servidores, com o total de 73 óbitos, segundo o boletim da Secretaria da Administração Penitenciária (SAP). Mas os dados da secretaria representam apenas uma das versões do fato. A realidade das vidas perdidas é outra, segundo os Sindcop.

Para o sindicato, que luta pela defesa dos direitos dos funcionários do sistema prisional, os números reais vão muito além dos números oficiais do governo.

Foram muito mais vidas e sonhos interrompidos. Muito mais lágrimas de filhos choram as perdas de seus pais. Famílias despedaçadas e marcadas pela dor da separação e de uma aposentadoria forçada, sem direito a despedida, aos abraços dos companheiros e companheiras pelo último dia de trabalho.

O presidente do Sindcop, Gilson Pimentel Barreto, disse que há colegas do sistema prisional morrendo de Covid-19 e que ainda não foram contabilizados porque aguardam exames. Outros, porque os exames foram feitos de forma particular, e não na rede credenciada. E isso faz com que os números reais sejam diferentes dos oficiais.

Em 7 de julho de 2020, no primeiro boletim de mortos divulgado pela secretaria, 19 servidores haviam morrido por Covid-19 nos presídios de São Paulo. Nove meses depois, até o final dessa reportagem, são 82 servidores que se transformaram em números que apenas registram o total de mortos no sistema prisional de São Paulo. Os 163 no Brasil, certamente já são números ultrapassados.

A maioria deles nem chegou a sonhar em ser imunizado. A demora para o início da vacinação dos profissionais da segurança pública certamente os afligia enquanto infectados e lutando pela vida. A vacina chegou aos policiais penais e demais servidores apenas no último dia 5. Ainda assim, foram muitas as denúncias recebidas pelo Sindcop sobre os critérios adotados para a imunização. Não, infelizmente, não foram todos os servidores do sistema prisional que tiveram direito a ser imunizados.

O Sindcop lamenta que, ao que tudo indica, a lista de 82 não deverá parar por aí. Assim é a vida de um herói. Eles são os policiais penais, reconhecidos no artigo 144 da Constituição depois de anos e anos de luta, no entanto, em São Paulo, a luta continua diante da morosidade do governo estadual em regulamentar a Polícia Penal do Estado de São Paulo.

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