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SINDICATO DOS POLICIAIS PENAIS E TRABALHADORES DO SISTEMA PENITENCIÁRIO PAULISTA
Reforma administrativa não deve avançar em 2022 segundo Bolsonaro
"A gente gostaria que a reforma administrativa avançasse”, diz Bolsonaro. Em entrevista à Rádio SINDCOP, consultor do Senado disse que a reforma administrativa não atinge apenas os futuros servidores públicos, mas também os atuais.

Carlos Vítolo

Da Redação – SINDCOP

 

Em entrevista à Jovem Pan, o presidente Jair Bolsonaro disse que algumas reformas econômicas que estão em tramitação no Congresso Nacional, não devem avançar neste ano. Entre as reformas, está a administrativa.

Enviada ao Congresso Nacional pelo governo federal, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 32/20 propõe uma série de alterações nas regras do serviço público e modifica a organização da administração pública direta e indireta, tanto da União, quanto dos estados, do Distrito Federal e dos municípios. As medidas envolvem contratação, remuneração, desligamento e estabilidade dos servidores.

Bolsonaro disse que gostaria que a reforma administrativa avançasse, mas que anos eleitorais são difíceis. "A gente gostaria que a reforma administrativa avançasse, por exemplo, mas eu tenho sete mandatos de deputado federal e nesses anos onde existem as eleições para presidente, para senadores, para deputados também são anos difíceis, não tem negociação", disse Bolsonaro.

O presidente disse ainda que "o parlamentar no final das contas ele vê aonde é que ele vai pagar um preço com aquele voto, contrário ou favorável a tal proposta. Então, muito difícil que qualquer proposta siga dentro do parlamento que possa despertar qualquer sentimento outro junto ao eleitorado brasileiro".

Em setembro do ano passado, a PEC 32 foi aprovada pela comissão especial da Câmara dos Deputados, por 28 votos favoráveis e 18 contrários, no entanto, ainda não foi enviada ao plenário para votação.

Durante todo a ano passado, o SINDCOP foi o único sindicato que representou os policiais penais de São Paulo em todos os movimentos de pressão dos servidores que ocorreram em Brasília. Foi o trabalho conjunto com sindicatos do país inteiro e da Associação dos Policiais Penais do Brasil (AGEPPEN-BRASIL), que impediu a votação da reforma administrativa.

 

» Não atinge apenas futuros servidores

Em entrevista à Rádio SINDCOP, no programa Revista Nacional, o consultor legislativo do Senado, o advogado Luciano Henrique da Silva Oliveira, disse que a reforma administrativa não atinge apenas os futuros servidores públicos, mas também os atuais. A conclusão faz parte de um estudo do consultor, que que analisa os efeitos diretos da reforma administrativa sobre os atuais servidores públicos.

Segundo o especialista, ao examinar tecnicamente o texto da reforma administrativa, nota-se “que as regras de transição da PEC nº 32, de 2020, não são suficientes para preservar os servidores de hoje da incidência do novo regime” e caso seja promulgado, os servidores serão atingidos em diversos pontos.

O documento aponta que especialistas têm comentado que a reforma poderá deteriorar a estrutura do serviço público e enfraquecer a meritocracia, a estabilidade e a segurança jurídica, especialmente dos servidores efetivos, tudo sem gerar efetivamente economia para o erário. “Mesmo que as novas regras se apliquem apenas aos futuros agentes, elas indiretamente afetarão também os atuais servidores, caso as mudanças venham realmente a degenerar o serviço público como um todo”.

O advogado explica que, para preservar os agentes administrativos de hoje dos efeitos das novas regras da reforma administrativa, é necessário que as regras de transição nela veiculadas, hoje constante dos arts. 2º a 9º da PEC, realizem efetivamente essa proteção. No entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF), de que não existe direito adquirido dos servidores ao regime jurídico vigente, se as regras de transição não ressalvarem expressamente a aplicação das normas futuras, os servidores do presente poderão ser alcançados pelas novas disposições.

O estudo destaca que o art. 2º da reforma administrativa prevê que será garantido um regime jurídico específico aos servidores públicos atuais, no entanto, não esclarece em que consistirá exatamente esse regime específico.

Enquanto isso, assegura aos atuais servidores a não aplicação das alíneas “a” a “j” do novo inciso XXIII do art. 37 da Constituição Federal, caso haja lei específica vigente em 1º/09/2020 (data de apresentação da PEC) que tenha concedido os benefícios nelas previstos, exceto se houver alteração ou revogação da referida lei.

“Essas novas alíneas vedarão, entre outros benefícios, férias superiores a trinta dias por ano, adicional por tempo de serviço, licença-prêmio, redução de jornada sem a correspondente redução de remuneração, aposentadoria compulsória como forma de punição, promoção por tempo de serviço e parcelas indenizatórias sem previsão em lei”, descreve o estudo do consultor do Senado.

Segundo o advogado, o inciso III do artigo é um dos dispositivos mais problemáticos da PEC, com uma redação “bastante nebulosa” e prevê que aos servidores públicos atuais serão assegurados os demais direitos previstos na Constituição. “Afinal, que demais direitos são esses? Seriam os atualmente previstos, isto é, os anteriores à entrada em vigor da Reforma Administrativa, ou aqueles que ela inserirá na Lei Maior para os futuros servidores?”

O estudo também faz referência às regras de perda do cargo por servidor público estável. Luciano Oliveira aponta que hoje a Carta Magna prevê que o servidor estável somente perderá o cargo em razão de sentença judicial transitada em julgado, de processo administrativo ou de avaliação periódica de desempenho. No entanto, ele relata que “as novas regras propostas dispõem que o servidor estável poderá perder o cargo por meio de decisão judicial transitada em julgado ou proferida por órgão judicial colegiado, de processo administrativo ou de avaliação periódica de desempenho”. E questiona: “Poderão os atuais servidores estáveis perder futuramente o cargo por decisão judicial colegiada não transitada em julgado? Ou por avaliação de desempenho prevista em lei ordinária, e não complementar?”

O art. 5º é outro ponto problemático da reforma para o especialista. Para ele, “o dispositivo busca preservar as regras atuais de acumulação de cargos e empregos públicos para os presentes servidores, a fim de que eles não sofram a incidência das novas regras de acumulação previstas pela PEC.”

De acordo com o estudo, na forma como está, a regra de transição garante a acumulação nos moldes atuais apenas para os servidores que já exercem dois cargos públicos. O especialista destaca que há dois problemas. “O primeiro – mais evidente – é que a regra prejudicará os atuais servidores que não exercem dois cargos públicos, mas que hoje tem a possibilidade de fazê-lo, que ficarão de fora da regra de transição sobre acumulação. O segundo – mais sutil, mas não menos relevante – é que, mantida a atual redação do art. 5º, haverá dúvida sobre qual regra de acumulação de cargos será aplicável aos atuais servidores que ainda não acumulam dois cargos.”

Ele aponta que a PEC da reforma administrativa cria duas regras diferentes para os futuros cargos típicos de Estado, que só poderão acumular o cargo de docência ou atividade própria de profissional da saúde. Enquanto isso, os demais servidores poderão acumular seu cargo com qualquer outro, desde que não haja conflito de interesses. “Na prática, poderá surgir a intepretação de que os servidores atuais ficarão sem autorização constitucional para a acumulação de cargos, ficando, com isso, mais prejudicados até do que os futuros servidores”, destaca.

Para solucionar a falha, o especialista sugere que é fundamental alterar a redação do caput do art. 5º da PEC nº 32, e que deveria constar o seguinte texto: “Ao servidor público investido em cargo efetivo ou emprego permanente até a data da entrada em vigor desta Emenda Constitucional é admitida a acumulação remunerada de cargos ou empregos públicos, se houver compatibilidade de horários e observado em qualquer caso o disposto art. 37, caput, inciso XI, da Constituição, nos seguintes casos: (...)”. Com isso, ele aponta que a regra de transição será estendida a todos os atuais servidores.

Ao concluir o estudo, o advogado Luciano Oliveira afirma que, há vários dispositivos da PEC nº 32 que, na atual redação, podem acabar afetando diretamente os atuais servidores públicos.

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